terça-feira, 16 de julho de 2019

Estamos na geração de idosos órfãos de filhos vivos?

Por Flavia Francellino / Fotos: Gettyimages

O número de pessoas com 60 anos ou mais aumenta mais do que o de qualquer outra faixa etária no mundo, tanto que a população idosa já supera a de crianças pequenas, como mostra um levantamento realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que estima um total de 705 milhões de pessoas acima de 65 anos, contra 680 milhões entre zero e quatro anos. No Brasil, em 2017, havia cerca de 28 milhões de idosos, ou 13,5% da população. Nesse cenário, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que até 2025 o País será o sexto a abrigar o maior número de pessoas idosas no mundo. As projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) evidenciam que a população idosa dobrará até 2042. Como esses números devem ser encarados? E como eles nos afetam?

Enquanto se buscam respostas, o balanço anual do Disque 100 (Disque Direitos Humanos) contabiliza aumento de 13% das denúncias de violações contra pessoas idosas. O serviço, oferecido pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), recebeu 37.454 denúncias em 2018. De acordo com o balanço, 52,9% dos casos foram cometidos pelos próprios filhos, seguidos pelos netos (7,8%). A casa da vítima figura como o palco de maior incidência de violação, respondendo por 85,6% dos registros. Quanto às queixas, a negligência lidera o ranking (38%), seguida de violência psicológica (26,5%), abuso financeiro (19,9%) e violência física (12,6%).

Negar cuidado e atenção aos pais é abandono afetivo.Nesse contexto, surge o termo “idosos órfãos de filhos vivos”, que ocorre quando o relacionamento entre filhos e pais idosos é pouco estreito e cuidadoso, por conta da falta de tempo e de dedicação por parte dos filhos.

Decorrência

O presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Carlos André Uehara, explica que muitos desses idosos não foram preparados para chegar à faixa etária que estão, até porque não havia a expectativa de vida observada hoje. Ele alerta que essa realidade compromete a saúde do idoso. “Alguns acabam evoluindo para uma depressão por causa do isolamento.

Com a perda de autonomia, há quem deixe de tomar remédios. É o que chamamos de suicídio passivo, que ocorre quando o idoso sabe que tem que cuidar da saúde, mas não o faz. Assim, com a negligência da família, eles acabam autonegligenciando a própria saúde”, observa.

A título de curiosidade

Há quem se sinta confortável com o fato de não estar (ainda) com a pele enrugada, mas se esquece que envelhecer é um processo que começa a partir do nascimento. Inclusive nesse milésimo de segundo todos nós estamos envelhecendo. “Muito se pergunta à criança o que ela quer ser quando crescer, enquanto deveria se perguntar o que ela quer ser quando envelhecer. A comunidade e a família precisam enxergar o idoso como um ser em potencial. Não o veem dessa forma até pela sociedade capitalista, pela ideia de força de trabalho braçal, mas isso é um paradoxo. Hoje se dá valor ao conhecimento e o idoso, que tem essa capacidade, é pouco valorizado. Estamos em um País onde a visão que se tem é de que o idoso é um ser doente, inútil, obsoleto. Por isso a sociedade tem medo de envelhecer. Esse é um privilégio que não é para todos”, opina o especialista.

Questionamento

Vez ou outra, surge uma pesquisa indicando o melhor lugar para se envelhecer. Atualmente, a HelpAge International, entidade internacional que monitora a qualidade de vida da terceira idade no mundo, aponta que é a Suécia. A Suíça já ocupou esse posto, assim como Noruega, Alemanha e Canadá. Dentre tantos fatores de inclusão, vale lembrar dos contatos sociais. Se o convívio social gera impactos, qual seria a importância das relações familiares? Em meio a tantas opções, o melhor lugar do mundo para se envelhecer não deveria ser dentro de casa?

Fonte: universal.org

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